Dormindo no rótulo

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Fiquei na dúvida, que me tirou o resto de sono que ainda tenho: começar uma newsletter por onde? O texto primeiro, algo no estilo editorial? Não. Um caso de viagem com vinho e com a defesa da Cabernet Sauvignon, eis o tema.

De repente, não sei quando, as pessoas parecem ter perdido o interesse por esta grande uva,  uma das maiores, uma das minhas favoritas.

Fiquei sete anos sem visitar o Chile, dava o país como ticado, já sabia o que precisava e, como os vinhos chilenos representam quase a metade do que é importado no Brasil, tenho tudo aqui para quando quiser. Estava muito enganado. Passei nos dois últimos anos cerca de 2 meses por lá, visitando e provando de vinhos de garagem, produção minúscula até os gigantes.

E vou começar falando de um gigante, pelo que nossa história tem de entrelaçada. Nos anos 80 do século passado, quando meu interesse por vinhos cresceu, a oferta aqui era do tamanho de uma prateleira, destas pequenas da Leroy Merlin.

Poucos rótulos, alguns portugueses, alguns italianos e os chilenos. Qualquer coisa diferente vinha da generosidade de alguma mala de amigo que trazia o que dava e dividia com conta-gotas para os mais íntimos. Vinho era coisa quase secreta, de sociedades com apertos de mão rituais e senhas e contrasenhas para a admissão ao sonhado copo.

O que eu podia comprar nunca saiu da memória, e os favoritos eram Tarapacá Ex-Zavala, Cousiño Macul Antiguas Reservas e Casillero del Diablo.

Dia de Tarapacá era dia de festa, por isso foi com medo que voltei à mansão sede, em outubro do ano passado. Passei uma noite lá, dormindo no próprio rótulo, que está estampado nas garrafas.

O receio da decepção era totalmente infundado. Visitei a propriedade com o enólogo, Sebastian Ruiz. Que lindeza o que estão fazendo, cavaram 300 calicatas (um buraco, às vezes bem fundo, com escada para descer) onde se vê o perfil geológico de cada pedaço de terreno. Foi o que os monges da Borgonha fizeram, plantando e observando cada poucos metros, uns 10 séculos atrás.

Sebastián levou para este vinhedo, que circunda o casarão sede, três amostras tiradas das barricas, visitamos as três calicatas correspondentes, e provamos. A calicata que mostrava solo mais argiloso deu um vinho mais gordo, redondão. A outra, deu um vinho de perfil austero, como um retrato de Modigliani e a terceira, um vinho mais crispado, com acidez notável.

De uma dezena de vinhos assim ele monta o blend, como se tivesse uma paleta de sabores, um deles que será o Gran Reserva Etiqueta Negra (meu favorito, 100% Cabernet). Um trabalho fascinante.

No jantar continuamos falando e ele me explicou todo o projeto que está mudando a empresa, a recuperação da mata original que circunda o vinhedo e que trouxe de volta um predador da aranhinha vermelha, inimiga das uvas, sem precisar jogar inseticida, apenas trocando o nefasto eucalipto pela vegetação nativa.

Quando vimos a garrafa tinha acabado. Ele percebeu minha cara de “ainda beberia uma tacinha”. Abriu outra garrafa, bebeu simbolicamente meia taça e se despediu, pois mora em Santiago e precisava voltar. “Fique à vontade, o casarão é seu e dos fantasmas”.

Levei a garrafa para o quarto, lá fora 5 graus abaixo de zero. Fui tranquilamente sorvendo meu Tarapacá Etiqueta Negra, celebrando a alegria pelo reencontro com este velho amigo, 30 anos depois. E dormi na primeira janela à esqueda do segundo andar do rótulo.

Curiosamente, em fevereiro deste ano, na festa da colheita na Lagarde, em Mendoza, o senhor Heny, no almoço do último dia fez sua tradicional megadegustação. Ele coloca aleatoriamente numa mesa de uns 20 metros de comprimento, vinhos raros de sua imensa adega. São Bordeaux, Barolos, Rieslings, Borgonhas, quase todos em magnum, e no meio vinhos antigos de sua própria produção, e alguns vizinhos e deixa que se prove à vontade, sem comentários ou ordem.

Lá no meio estava uma magnum de Tarapacá Gran Reserva Cabernet Sauvignon 1982, e ele deu um show, mostrando como podem envelhecer e evoluir bem estes vinhos para os quais muita gente torce o nariz.

Os vinhos Tarapacá são importados pela Èpice Vinhos (www.epice.com.br)

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