Câmbio, o inimigo do acaso

A coluna da Cris Beltrão

 

cris by Flavia Azevedo

 

“Cris, me diz aí um lugar bom pra se comer em Nova York?”
Ai.
Coisas que fazemos a trabalho não têm nada a ver com coisas em férias. É outro troço. Tudo vai se enfiando ao longo do dia, com menos prazer e mais correria, sem música de fundo ou olhar generoso. E todos os caminhos – reuniões, feiras, contratos e, agora, uma filha expatriada – me levam a Manhattan. Conheço bem aquele naco de terra, do cabo de Inwood Hill ao rabo de Battery Park.
Pois “a vida como ela é” tem sua dose de chatice, mesmo nas cidades mais adoráveis. Além do mais, o câmbio – aquele ingrato – não dá chance ao acaso. Foi assim que desisti de esbarradas poéticas, principalmente quando não estou a lazer. Leio uma penca de jornais, revistas e a opinião de gente respeitada, só pra garantir uma refeição decente sem penhorar um rim.
E no meio do dever de casa, leio invariavelmente a manchete “a mais aguardada inauguração do ano”, em vários veículos de respeito. Em geral, o chef tem pedigree, uma causa linda e coisa e tal e lá vai a minha expectativa virar aquela senhora gorda e bem recheada, feito peru de Natal.
Minha sensação é de que a produção tomou um lugar desproporcional em Nova York. Anda cada vez mais fantástica, com cenários e utensílios lindos e conceitos que pretendem salvar o mundo, mas se compararmos com outros centros urbanos, como Lisboa, Londres, Cidade do México ou mesmo San Francisco, as estreias nova-iorquinas têm entregado pouco onde interessa: o prato. A comida é meio insossa, morna, versão requentada de um déjà vu. Noves fora o falatório, não vale a visita.
Fiquei com a sensação de já ter vivido aquela derrota, e então caiu a ficha. Era o 7 x 1 (gol da Alemanha!) outra vez. A cada sete tentativas em Manhattan, apenas uma se salva.
Mas… e o gol?
Olhando para trás uns meses, quem me despertou da catatonia foi um restaurante de cozinha do Oriente Médio, sem grandes produções, que inaugurou em fins de 2017. Demorei a visitar, burramente, porque fui seduzida por manchetes mais importantes, mas Meir Adoni já faz muito sucesso em Tel Aviv. Tem 2 restaurantes ótimos por lá, além de outro em Berlim e decidiu rachurar um quadrado em Flatiron. Melhor pra mim.
O lugar é simples, pequeno, um pouco barulhento, com um bar desperdiçado na entrada e um salão espartano ao fundo. Digo ‘desperdiçado’ porque estava vazio, imerecidamente.
Ao abrir a carta, não esperava encontrar um drinque que reunisse três grandes produtores: Pineau des Charentes do Prunier, jerez amontillado da Lustau e licor de yuzu da Yuzuri. Mas o melhor nem foi isso…. foi estar bom. Boas bebidas, assim como bons ingredientes, são frequentemente assassinados em misturas ruins. Num impulso, sorri pro barman, toda feliz, e ele me achou esquisitinha. O nome do drinque? “And she was”.
A carta também é interessante e tem produtores israelenses, libaneses ou um vinho em estilo bordalês feito na Turquia, além dos países tradicionais que agradam aos menos curiosos.
A ideia do lugar é pegar um monte de pequenos pratos e compartilhar. Comecei então com o ‘kubaneh’, o pão judaico do Iêmen – para matar o tempo entre os cursos – que vinha com molho picante de coentros e malagueta verde chamado ‘schug’, também iemenita. Uma delícia.
Em seguida fui de carpaccio de berinjela defumado com queijo feta assado, pasta de gergelim (tahine) cru, tâmaras, pistache e pétalas de rosas, que me falou à alma. Por favor, não deixe minha descrição detalhada espantar seu desejo. Pediria, ali, outras 18 porções daquilo mesmo e mais uns 3 drinques iguais, mas a obrigação profissional, aquela ranzinza, me fez abrir o leque.
Não saberia dizer o que estava melhor: se as costeletas de cordeiro em ponto mais que impecável, com cenouras rústicas assadas, cuscuz com tershi de abóbora (pastinha líbia com especiarias) e limão queimado ou o peixe com risotto de freekeh (trigo verde duro), repolho na grelha, creme de berinjela, tahine, iogurte, amêndoas e vagens tenras. Sinceramente, voltaria correndo para os dois.
Lá pela altura da sobremesa, já estava bêbada e feliz. Não sei dizer (até agora) se não havia sobremesa naquele dia e, por isso, nos ofereceram uma de cortesia, ou se só havia aquela sobremesa na casa, que em geral ofereciam de cortesia. Fato é que ela veio de graça. Era um potinho pequenino, cremoso e diabólico de pudim de leite pouquíssimo doce, com pistache, frutas vermelhas e água de rosas.
Só sei dizer que a casa valeu todos os gols que levei.
Naquele quadrado, 7 a 1 é empate.
Se for, me leve.

***

NUR RESTAURANT
34, East, 20th street – Nova York
www.nurnyc.com

 

[ilustração: Flávia Azevedo]

 

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