ÀS ARMAS! – O ATAQUE À DESPENSA DURANTE A QUARENTENA

[por Cris Beltrão, direto do Rio de Janeiro]

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O combinado era escrever sobre viagens. Meu contrato ‘fio do bigode’ com o Luiz não previa que longa-distância, quando muito, seria a ida do quarto à sala e vice-versa.

Gente bem mais animada que eu, tem feito bom uso da quarentena: tira o atraso nos exercícios, começa a meditar, põe leitura em dia, os papéis em ordem, sei lá. Por aqui, pra variar, só pensamos em comida.

 Resolvi investigar a despensa com particular interesse. Que raiva. Quanta coisa guardei só pra morrer bestamente, fora da validade e em silêncio, esperando um dia especial. Mal sabia que “especial” não seria dia de festa, bodas ou parabéns de filho, e sim um colete salva-vidas do tédio, a única alegria possível nas horas emperradas pela rotina. 

Segui escavando.

 Atrás de um mel grego da ilha de Ikaria, que desgraçadamente teve de ir para o lixo, duas latas de sardinha millésimme (safradas) da conserveira La Gondola me sorriram.

Ao contrário das conservas comuns, as sardinhas com safra apontada são preparadas com os melhores azeites e peixes do ano, com a campanha de pesca tentando mirar no ponto ideal de crescimento, que é exatamente o que sucede a petinga – sardinha jovem, magra e delicada.

 Depois de escolhidas, ficam lá de quarentena dentro da lata, as bichas, por dez, quinze anos, com um sabor que só melhora. A embalagem, idealmente, deve ser virada de cabeça pra baixo a cada seis meses, para distribuir melhor o óleo. O momento certo? Não se sabe. A data de validade impressa é só uma sugestão.

 Pois abri as conservas e comparei as safras 2014 e 2015 como se estivesse num banquete no palácio de Assurnasipal II, rei persa, em festa de dez dias, com 70 mil convidados e as melhores iguarias do mundo. Estariam no ápice? Sei lá… eu estava pronta.

 O vinho escolhido foi um alvarinho Deu La Deu, verde e crespo, roubado da adega adormecida do meu restaurante, com acidez suficiente pra dar cabo do óleo entranhado no bicho. E que delícia!

 As de 2015 eram imensas. É estranho, mas natural que o crescimento varie, ano a ano, dependendo da disponibilidade de alimentos e mudanças ambientais, ainda que os peixes sejam sempre capturados na mesma época. Estavam ótimas, mas preferi, de longe, as de 2014, bem menores e menos gordurosas, mais delicadas e ainda muito firmes, ao contrário da mais jovem. Quisera tivesse outra latinha para testar mais adiante.

Suspiro.

 E passando do azeite ao vinagre, outro dia resolvi fazer a disputa entre dois balsâmicos extra-velhos de Modena: um da Acetaia San Leonardo e outro da Maison Brémond 1830 (antiga Oliviers et Co, que perdeu o direito de usar este nome).

O verdadeiro vinagre balsâmico, ao contrário dos “genéricos” que vemos por aí, é feito com o mosto cozido das uvas lambrusco ou trebbiano, fermentado e maturado pelo mínimo de 12 anos numa “batteria” de barris de envelhecimento. A cada ano, parte do vinagre evapora e é completado com o líquido de barris anteriores, como no método “solera”, do Jerez, para que não se solidifique.

O líquido final, do menor barril da “batteria”, é denso e orgulhoso, teimando em não sair da garrafa sem uma briga, agarrando-se pelas paredes e honrando o caminho que percorreu. Foi o caso do vinagre da Acetaia Leonardi, envelhecido em cerejeira por 30 anos. Viscoso, denso, doce… não queria que acabasse. Já o da 1830, também feito na Itália, era excelente mas não tinha a mesma consistência, o que justifica, sem dor ou culpa, os vários euros a mais da primeira marca.

 Comi os dois com um queijo tipo comté, da Serra das Antas (provem!), uma paixão arrebatadora recente, medalha de ouro no último concurso nacional.

 Ia falar sobre o Equador e seus chocolates – trouxe 25 barras na mala – , mas acho que o post já está grande demais… e eu também.

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FOTOS:  ©Cris Beltrão 2020

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