Champagne boa é a verdade na taça

Uma adorável surpresa conhecer os champagnes de tão renomado nome, os Rothschild, solidamente fincados na história dos grandes vinhos de Bordeaux, que se uniram (os três ramos da família) para produzir uma bebida em comum fora de seu terroir de conforto.

E que belo resultado! Provei o brut com grande prazer, tem corpo, perlage (a “perolagem”, o fino fio de borbulhas que sobem pela taça), uma presença ampla na boca e é longo, deixando um gostoso sabor do clássico brioché, aquele sabor e aroma inconfundiveis dos bons champagnes, de pão recém assado. Bela companhia para entradas frias. Era o prenúncio do que estava por vir.

O rosé ( confesso, sou pouco fã de champagne rosé, sempre encontro um traço de amargo final na maioria) foi outra surpresa, a presença da Pinot Noir cumpriu seu papel de dar cor sem, no entanto, trazer o tal amargo dos taninos das cascas (é delas que saem os pigmentos para a cor, no caso da Barons de Rothschild um pálido salmonado muito bonito. Bebe-se com o olhar também). Foi a perfeição com um menu de comida japonesa que encomendei para acompanhar a bebida à minha chef favorita, Telma Shiraishi, do Aizomê, que pensou um menu para a bebida. Quem pensa que comida japonesa se consome só com saquê ou com cerveja, está perdendo um mundo de prazeres. Todos aqueles sabores que beliscam e sopram da verdadeira maestria na comida nipônica se casam como harmonias das esferas nesta dupla: champagne e sashimi, champagne e os tons suaves do yuzu, champagne e o lombo com misô de castanhas portuguesas. Queria fixar no tempo este encontro, restou a foto.

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Estou lendo o livro “Nagori” da escritora japonesa radicada na França, Ryoko Sekiguichi. Nagori é um conceito lindo, a nostalgia que nos invade quando comemos o que sabemos ser o final, uma fruta que sairá de estação, um último gole de algo sublime. É, como todo conceito japonês, complexo e melancólico, a sabedoria de uma leve tristeza antecipada. Comi meu banquete japonês com o rosé Barons de Rothschild, pleno de nagori.

Mas, o melhor estava por vir, o Blanc des Blancs, onde a verdade de Champagne se mostra, na expressão pura da Chardonnay daquele solo privilegiado. É mineral, intenso, aromático e generoso no paladar, fazendo que um gole peça outro e outro…acompanhei com queijos de várias origens, quanto mais fresco e lácteo, mais o líquido aparecia. Uma perfeição, belo manejo dos componentes que fazem um grande Champagne. a arte do maître de chai, o homem cujo talento alquímico consegue, na mistura de diversos champagnes, produzir o equilíbrio, a felicidade e a poesia. Ultimamente, neste mundo perverso em que estamos, estas filigranas de conhecimento e talento pareceram sumir. Mas não, este saber que passa por gerações continuará, aconteça o que aconteceer. O fascínio francês pelo Japão, o fascínio japonês pela França, está tudo tão claro, são países em que se cultivam as minúcias do prazer.

Ninguém ligaria, de imediato, o nome Rothschild a Champagne, tive provas de que está errado não fazê-lo. Terminei a primeira etapa do Tour de France Edega, viagem engarrafada pelo meu país do coração, patrocinado por monsieur Philippe de Nicolay Rothschild, em estado de leveza, sentindo que estou fazendo a viagem dos sonhos, mesmo na quarentena, pois viajar é sonhar.

Vou rumo ao Loire. Guardei o Champagne safrado, 2010, para o final da jornada.

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