Como aprendi a gostar de café

Hoje eu sou conhecido como uma pessoa que bebe vinho, fala de vinho, vive de vinho. Mas isso é só parte do que me interessa. Não vou contar minha vida neste post, até para evitar um ataque de narcolepsia nos leitores.

Saindo da faculdade de filosofia, onde meu foco maior era a teoria da arte, passei quase duas décadas lidando com artes plásticas. E como todo brasileiro da minha geração, sempre fui bebedor de uísque, que ainda curto (ah, a ilh de Islay!). E adito à cafeína, sob suas diversas formas, chá preto, chimarrão e café. Meu desjejum típico é meio litro de café puro e mais nada.

Muito tempo atrás, antes da chamada Third Wave do café (toda a preocupação que cerca a seleção de grãos, torrefação, moagem, etc) o café eram bem, digamos sem meias palavras, intragáveis, algo como os taninos verdes no vinho, um amargo que lixa sua língua e leva dois dias para ir embora.

E aqui entro no assunto deste artigo. A primeira vez que bebi uma xícara de espresso illy foi uma epifania, equivalente a dar um Porto 20 anos a quem só bebe vinho de garrafão. O café tinha aromas sedutores, camadas de sabor, acidez matadora de sede (tudo precisa de acidez, imagine uma limonada sem limões) e doçura, complexidades que nunca tinha sentido na bebida.

Comecei a me informar, a internet ainda não existia, mas em viagens fui descobrindo a paixão da família illy pelo café, a contribuição extraordinária que deram à melhora do produto até mesmo no Brasil (o Prêmio illy estimulou pequenos produtores a buscar ganhar prêmios e fazer parte do blend final da marca) e sua ligação com o que me interessava: arte.

O logo vermelho da empresa foi desenhado pelo artista pop americano James Rosenquist, as xícaras criadas pelo famoso designer italiano Matteo Thun (com a asa inconfundível, redondinha e boa de segurar) e anualmente uma edição especial assinada é colocada no mercado, tendo virado objeto de desejo e coleção.

Eu tenho as de Anish Kapoor, de Almodovar e algumas outras e um dia terei as de Louise Bourgeois, que são duras de garimpar em leilões.

Esta “revolução illy” agora pode parecer banal. Só que significou um antes e um depois decisivos para o café. Quando estou em alguma cidade que não conheço, a plaquinha vermelha me garante um bom café, foi assim recentemente no Chile, onde a onda cafeeira não chegou, tinha illy eu entrava e estava salvo.

A novidade, dada em primeira mão para este blog/newsletter é que São Paulo tem o primeiro Chef Ambassador illy. Ou seja, um chef que criou em Trieste, sede da empresa, depois de muitos testes, o seu blend pessoal, que será servido exclusivamente no restaurante onde é chef-executivo.

É Felipe Rodrigues do Tangará Jean-Georges, restaurante do Hotel Palácio Tangará, o feliz criador. É fascinante acompanhar o processo criativo do café pessoal do chef. O pacote já mostra o espírito do projeto, com um gráfico em que as notas que mais interessavam a ele foram balanceadas, tanto aromáticas quanto gustativamente.

Eu achei o café extremamente elegante, com um toque floral muito persistente e bastante longo. Imgino que seja delicioso terminar uma refeição completa, com vinhos e um cognac ao final e tomar o café. Ainda não conheço o restaurante, já tive oportunidade de provar o talento do chef em outra oportunidade anterior. Mas, tenho o privilégio de ter um saco de grãos só meu, que venho testanto de distintas maneiras, coado (ainda meu favorito para descobrir nuances), espresso e na prensa francesa. Gosto de moer na hora os grãos, no braço mesmo, num pequeno moinho Hario que carrego na mala quando viajo, e é minha ginástica matinal.

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[Minha mesa de trabalho, enquanto escrevo, apesar da bagunça, dá para ver a xícara de Matteo Thun, prometo fotos melhores no futuro].

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O vinho de 5a e algumas novidades

 

A volta de uma instituição (para mim era, pelo menos, pelo desafio): o vinho de Quinta Feira. Na minha coluna do Paladar, de 2007 a 2014, toda semana eu sugeria um vinho na faixa dos 50 reais (pois é, bons tempos). Como o caderno circula às 5as,o nome ficou. A ideia era nunca passar de 100 reais e dar às pessoas uns dias para comprar e beber no fim de semana, se gostassem da sugestão.

 

Toda 5ª portanto, mandarei aos assinantes da Hortaletter, uma sugestão, adaptada aos novos tempos, em média 80 reais, procurando não estourar as 150 moedas. Vamos ver se conseguirei.

Aproveitando o que escrevi hoje na Folha, sobre os rótulos oferecidos aos chefes de Estado e ministros, no Encontro do Mercosul, acontecido em Bento Gonçalves, o vinho é o Riesling Single Vineyard Johannisberg Miolo 2019.

 

Este vinhedo, na Campanha Gaucha, era parte da Almadén, e, que eu saiba, é um dos poucos ou único vinhedo de Riesling no País. Riesling Itálico, bastante comum no sul, faz muita confusão, mas se trata de outra uva, originária da Croácia, onde se chama Grasevina.

 

Faz pouco a Miolo, que comprou a Almadén uma década atrás, teve a sábia decisão de vinificá-la em separado e dar-lhe a dignidade que merece, com as honras de ser single vineyard, quer dizer, de um vinhedo único e com origem marcada. O vinho é franco, aberto, de complexidade média. Vamos ver como se comportará com a passagem do tempo, mas tem a tipicidade da uva e é muito gostoso. E o preço está bem bom, indico aqui a loja oficial da Miolo, mas achei mais barato dando um google, em revendedores de outros lugares.

 

O vinho está por R$71,92 na loja da Miolo: https://loja.miolo.com.br/produto/vinho-miolo-single-vineyard-riesling-johannisberg-safra-2019-750ml-69913

 

 

O que vem por aí:

 

-Hortaletter terá uma colunista convidada na semana que vem, aguardem, é um upgrade e tanto para o site recém-nascido.

 

-Volta em 2020, mas terá um trailer em breve (data a ser divulgada) o antigo Família Bebe Tudo, rebatizado de Ajudantes de Degustação (ia ser cobaias, mas o nome era meio ofensivo, né?). São garrafas que preciso provar para postar aqui, e que por preço simpático dividirei com quem queira pagar, assim tenho opiniões mais variadas e vozes plurais, sem ficar só minha opinião mandando.

 

-Os eventos na Ravin devem continuar, num ritmo diferente, o formato estava se esgotando e estamos pensando em algo.

 

-Logo que eu arrume tempo organizarei a página, onde os hortagramas, hortaletters e etc estarão reunidos, sendo mais fácil consultar. Peço calma pois eu que monto a prateleira, carrego garrafas, escrevo, envio, respondo. Tudo sai, mas o tempo é humano, e um humano só. O blog do eu sózinho.

 

Luiz Horta, direto da redacinha da Hortapresse, Ilha da Aclimação, 5 de dezembro de 2019, 21 graus C, mansa chuva.riesling

Dormindo no rótulo

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Fiquei na dúvida, que me tirou o resto de sono que ainda tenho: começar uma newsletter por onde? O texto primeiro, algo no estilo editorial? Não. Um caso de viagem com vinho e com a defesa da Cabernet Sauvignon, eis o tema.

De repente, não sei quando, as pessoas parecem ter perdido o interesse por esta grande uva,  uma das maiores, uma das minhas favoritas.

Fiquei sete anos sem visitar o Chile, dava o país como ticado, já sabia o que precisava e, como os vinhos chilenos representam quase a metade do que é importado no Brasil, tenho tudo aqui para quando quiser. Estava muito enganado. Passei nos dois últimos anos cerca de 2 meses por lá, visitando e provando de vinhos de garagem, produção minúscula até os gigantes.

E vou começar falando de um gigante, pelo que nossa história tem de entrelaçada. Nos anos 80 do século passado, quando meu interesse por vinhos cresceu, a oferta aqui era do tamanho de uma prateleira, destas pequenas da Leroy Merlin.

Poucos rótulos, alguns portugueses, alguns italianos e os chilenos. Qualquer coisa diferente vinha da generosidade de alguma mala de amigo que trazia o que dava e dividia com conta-gotas para os mais íntimos. Vinho era coisa quase secreta, de sociedades com apertos de mão rituais e senhas e contrasenhas para a admissão ao sonhado copo.

O que eu podia comprar nunca saiu da memória, e os favoritos eram Tarapacá Ex-Zavala, Cousiño Macul Antiguas Reservas e Casillero del Diablo.

Dia de Tarapacá era dia de festa, por isso foi com medo que voltei à mansão sede, em outubro do ano passado. Passei uma noite lá, dormindo no próprio rótulo, que está estampado nas garrafas.

O receio da decepção era totalmente infundado. Visitei a propriedade com o enólogo, Sebastian Ruiz. Que lindeza o que estão fazendo, cavaram 300 calicatas (um buraco, às vezes bem fundo, com escada para descer) onde se vê o perfil geológico de cada pedaço de terreno. Foi o que os monges da Borgonha fizeram, plantando e observando cada poucos metros, uns 10 séculos atrás.

Sebastián levou para este vinhedo, que circunda o casarão sede, três amostras tiradas das barricas, visitamos as três calicatas correspondentes, e provamos. A calicata que mostrava solo mais argiloso deu um vinho mais gordo, redondão. A outra, deu um vinho de perfil austero, como um retrato de Modigliani e a terceira, um vinho mais crispado, com acidez notável.

De uma dezena de vinhos assim ele monta o blend, como se tivesse uma paleta de sabores, um deles que será o Gran Reserva Etiqueta Negra (meu favorito, 100% Cabernet). Um trabalho fascinante.

No jantar continuamos falando e ele me explicou todo o projeto que está mudando a empresa, a recuperação da mata original que circunda o vinhedo e que trouxe de volta um predador da aranhinha vermelha, inimiga das uvas, sem precisar jogar inseticida, apenas trocando o nefasto eucalipto pela vegetação nativa.

Quando vimos a garrafa tinha acabado. Ele percebeu minha cara de “ainda beberia uma tacinha”. Abriu outra garrafa, bebeu simbolicamente meia taça e se despediu, pois mora em Santiago e precisava voltar. “Fique à vontade, o casarão é seu e dos fantasmas”.

Levei a garrafa para o quarto, lá fora 5 graus abaixo de zero. Fui tranquilamente sorvendo meu Tarapacá Etiqueta Negra, celebrando a alegria pelo reencontro com este velho amigo, 30 anos depois. E dormi na primeira janela à esqueda do segundo andar do rótulo.

Curiosamente, em fevereiro deste ano, na festa da colheita na Lagarde, em Mendoza, o senhor Heny, no almoço do último dia fez sua tradicional megadegustação. Ele coloca aleatoriamente numa mesa de uns 20 metros de comprimento, vinhos raros de sua imensa adega. São Bordeaux, Barolos, Rieslings, Borgonhas, quase todos em magnum, e no meio vinhos antigos de sua própria produção, e alguns vizinhos e deixa que se prove à vontade, sem comentários ou ordem.

Lá no meio estava uma magnum de Tarapacá Gran Reserva Cabernet Sauvignon 1982, e ele deu um show, mostrando como podem envelhecer e evoluir bem estes vinhos para os quais muita gente torce o nariz.

Os vinhos Tarapacá são importados pela Èpice Vinhos (www.epice.com.br)